quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Questões Graciliano

(FUVEST) Leia o trecho para responder ao teste.

"Fizeram alto. E Fabiano depôs no chão parte da carga, olhou o céu, as mãos em pala na testa. Arrastara-se até ali na incerteza de que aquilo fosse realmente mudança. Retardara-se e repreendera os meninos, que se adiantavam, aconselhara-os a poupar forças. A verdade é que não queria afastar-se da fazenda. A viagem parecia-lhe sem jeito, nem acreditava nela. Preparara-a lentamente, adiara-a, tornara a prepará-la, e só se resolvera a partir quando estava definitivamente perdido. Podia continuar a viver num cemitério? Nada o prendia àquela terra dura, acharia um lugar menos seco para enterrar-se. Era o que Fabiano dizia, pensando em coisas alheias: o chiqueiro e o curral, que precisavam conserto, o cavalo de fábrica, bom companheiro, a égua alazã, as catingueiras, as panelas de losna, as pedras da cozinha, a cama de varas. E os pés dele esmoreciam, as alpercatas calavam-se na escuridão. Seria necessário largar tudo? As alpercatas chiavam de novo no caminho coberto de seixos." (Vidas secas, Graciliano Ramos)

Assinale a alternativa incorreta:

a) O trecho pode ser compreendido como suspensão temporária da dinâmica narrativa, apresentando uma cena "congelada", que permite focalizar a dimensão psicológica da personagem.
b) Pertencendo ao último capítulo da obra, o trecho faz referência tanto às conquistas recentes de Fabiano, quanto à desilusão do personagem ao perceber que todo seu esforço fora em vão.
c) A resistência de Fabiano em abandonar a fazenda deve-se à sua incapacidade de articular logicamente o pensamento e, portanto, de perceber a gradual mas inevitável chegada da seca.
d) A expressão "coisas alheias" reforça a crítica, presente em toda obra, à marginalização social por meio da exclusão econômica.
e) As referências a "enterro" e "cemitério" radicalizam a caracterização das "vidas secas" do sertão nordestino, uma vez que limitam as perspectivas do sertanejo pobre à luta contra a morte.


2. (FUVEST) Um escritor classificou Vidas secas como “romance desmontável”, tendo em vista sua composição descontínua, feita de episódios relativamente independentes e seqüências parcialmente truncadas.
Essas características da composição do livro:

a) constituem um traço de estilo típico dos romances de Graciliano Ramos e do Regionalismo
nordestino.
b) indicam que ele pertence à fase inicial de Graciliano Ramos, quando este ainda seguia os ditames do primeiro momento do Modernismo.
c) diminuem o seu alcance expressivo, na medida em que dificultam uma visão adequada da realidade sertaneja.
d) revelam, nele, a influência da prosa seca e lacônica de Euclides da Cunha, em Os sertões.
e) relacionam-se à visão limitada e fragmentária que as próprias personagens têm do mundo.


3. (PUC-SP) O mulungu do bebedouro cobria-se de arribações. Mau sinal, provavelmente o sertão ia pegar fogo. Vinham em bandos, arranchavam-se nas árvores da beira do rio, descansavam, bebiam e, como em redor não havia comida, seguiam viagem para o Sul. O casal agoniado sonhava desgraças. O sol chupava os poços, e aquelas excomungadas levavam o resto da água, queriam matar o gado. (…) Alguns dias antes estava sossegado, preparando látegos, consertando cercas. De repente, um risco no céu, outros riscos, milhares de riscos juntos, nuvens, o medonho rumor de asas a anunciar destruição. Ele já andava meio desconfiado vendo as fontes minguarem. E olhava com desgosto a brancura das manhãs longas e a vermelhidão sinistra das tardes. (…)
O trecho acima é de Vidas Secas, obra de Graciliano Ramos. Dele, é incorreto afirmar-se que:

a) prenuncia nova seca e relata a luta incessante que os animais e o homem travam na constante defesa da sobrevivência.
b) marca-se por fatalismo exagerado, em expressão como “o sertão ia pegar fogo”, que impede a manifestação poética da linguagem.
c) atinge um estado de poesia, ao pintar com imagens visuais, em jogo forte de cores, o quadro da penúria da seca.
d) explora a gradação, como recurso estilístico, para anunciar a passagem das aves a caminho do Sul.
e) confirma, no deslocamento das aves, a desconfiança iminente da tragédia, indiciada pela “brancura das manhãs longas e a vermelhidão sinistra das tardes”.


4. (UFLA) Sobre a obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos, todas as alternativas estão corretas, EXCETO:

a) O romance focaliza uma família de retirantes, que vive numa espécie de mudez introspectiva, em precárias condições físicas e num degradante estado de condição humana.
b) O relato dos fatos e a análise psicológica dos personagens articulam-se com grande coesão ao longo da obra, colocando o narrador como decifrador dos comportamentos animalescos dos personagens.
c) O ambiente seco e retorcido da caatinga é como um personagem presente em todos os momentos, agindo de forma contínua sobre os seres vivos.
d) A narrativa faz-se em capítulos curtos, quase totalmente independentes e sem ligação cronológica e o narrador é incisivo, direto, coerente com a realidade que fixou.
e) O narrador preocupa-se exclusivamente com a tragédia natural (a seca) e a descrição do espaço não é minuciosa; pelo contrário, revela o espírito de síntese do autor.


5. (UEL) O texto abaixo apresenta uma passagem do romance Vidas secas, de Graciliano Ramos, em que Fabiano é focalizado em um momento de preocupação com sua situação econômica. Escrito em 1938, esta obra insere-se num momento em que a literatura brasileira centrava seus temas em questões de natureza social.

"Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabeça. Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se trepa. Consumidos os legumes, roídas as espigas de milho, recorria à gaveta do amo, cedia por preço baixo o produto das sortes. Resmungava, rezingava, numa aflição, tentando espichar os recursos minguados, engasgava-se, engolia em seco."
(In: RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 55. ed. Rio de Janeiro: Record, 1991.)
Sobre este trecho do romance, somente está INCORRETO o que se afirma na alternativa:

a) Este trecho resume a situação de permanente pobreza de Fabiano e revela-se como uma crítica à economia brasileira e às relações de trabalho que vigoravam no sertão nordestino no momento em que a obra foi criada. Isso pode ser confirmado pelas orações: "... Consumidos os legumes, roídas as espigas de milho, recorria à gaveta do amo, cedia por preço baixo o produto das sortes...."
b) A oração: "Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabeça" tanto pode ser o discurso do narrador que revela o pensamento de Fabiano, quanto pode ser o próprio pensamento dessa personagem. Esse modo de narrar também ocorre com as demais personagens do romance.
c) A oração: "... Resmungava, rezingava, numa aflição, tentando espichar os recursos minguados, engasgava-se, engolia em seco" indica a voz do narrador em terceira pessoa, ao mostrar o estado de agonia em que se encontra a personagem.
d) A expressão “Forjara planos”, típica da linguagem culta, é seguida no texto por um provérbio popular: “quem é do chão não se trepa”. Essa mudança de registro lingüístico é reveladora do método narrativo de Vidas secas, que subordina a voz das classes populares à da elite.
e) O texto tem início com a esperança de Fabiano de mudanças em sua situação econômica; a seguir, passa a focalizar a realidade de pobreza em que a personagem se encontra, e finaliza com sua revolta e angústia diante da condição de empregado, sempre em dívida com o patrão.

ACAFE / SC) A vida na fazenda se tornara difícil. Sinha Vitória benzia-se tremendo, manejava o rosário, mexia os beiços rezando rezas desesperadas. Encolhido no banco do copiar, Fabiano espiava a catinga amarela, onde as folhas secas se pulverizavam, trituradas pelos redemoinhos, e os garranchos se torciam, negros, torrados. No céu azul, as últimas arribações tinham desaparecido. Pouco a pouco os bichos se finavam, devorados pelo carrapato. E Fabiano resistia, pedindo a Deus um milagre.

De acordo com o fragmento acima, é incorreto o que se afirma em:

a) Tanto Sinha Vitória quanto Fabiano tinham fé na providência divina.
b) O enfoque é narrativo.
c) O que se relata ao longo do parágrafo tem o objetivo de confirmar a afirmação da primeira frase.
d) Há evidências de que Sinha Vitória e Fabiano estão fragilizados, pois ela "benzia-se tremendo" e ele estava "encolhido na banco do copiar".
e) O tema predominante é a indagação metafísica sobre a existência (inexistência) de Deus.



7. (ACAFE / SC) Baleia queria dormir. Acordaria feliz num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes. (Graciliano Ramos)

Sobre o texto acima, é correto afirmar que:

a) há marcas próprias do chamado discurso direto através do qual são reproduzidas as falas das personagens.
b) o narrador é observador, pois conta a história de fora dela, na terceira pessoa, sem participar das ações, como quem observou objetivamente os acontecimentos.
c) quem conta a história é uma das personagens, que tem uma relação íntima com as outras personagens, e, por isso, a maneira de contar é fortemente marcada por características subjetivas, emocionais.
d) evidencia-se um conflito entre a protagonista Baleia e o antagonista Fabiano, pois este impede que a cadela possa caçar os preás.
e) o narrador é onisciente, isto é, geralmente ele narra a história na terceira pessoa, sabe tudo sobre o enredo e sobre as personagens, inclusive sobre suas emoções, pensamentos mais íntimos, às vezes, até dimensões inconscientes.



8. (ACAFE / SC) Sobre a obra Vidas secas, é correto afirmar que:

a) a preocupação com a fidedignidade histórica e com o tom épico atenua o sentimento dramático da vida, habitualmente presente nos poemas do autor.
b) apresenta temática indianista, a exemplo do que fizera Gonçalves Dias em Os timbiras e Canção do tamoio.
c) as personagens humanas, em razão da seca, da fome, da miséria e das injustiças sociais, animalizam-se; em contrapartida, os bichos humanizam-se.
d) Chico Bento, antes da seca, não era vagabundo, nem bandido; era um trabalhador rural. e) narra a história de um burguês, Paulo Honório, que passara da condição de caixeiro-viajante e guia de cego à de rico proprietário de uma fazenda. Para atingir seus objetivos, o protagonista elimina todos os empecilhos que se colocam à sua frente, inclusive pessoas.


9. (ACAFE / SC) Analise as afirmações abaixo.

(I) "Será um romance? É antes uma série de quadros, de gravuras em madeira, talhadas com precisão e firmeza."

(II) "Construído como uma longa narrativa oral, o romance tem como personagem-narrador Riobaldo, um velho fazendeiro, que já foi homem de letras e de armas e que vive às margens do rio São Francisco."

(III) "Com a análise psicológica do universo mental das personagens, que expõe por meio do discurso indireto livre, o narrador nos vai decifrando a sua humanidade embotada, confundida com a paisagem áspera do sertão, neste romance que transcende o regionalismo e seu contexto específico."

(IV) "Emprestando dinheiro a juros, negociando de arma engatilhada no sertão, passando fome e sede, [o protagonista] consegue acumular algum capital e com ele volta para a sua terra, no município de Viçosa, Alagoas, onde ficava a propriedade."

(V) "O tema do poema é o itinerário do retirante nordestino, que parte do sertão paraibano em direção ao litoral, em busca de sobrevivência, devido à seca e às precárias, senão insustentáveis, condições de vida da maioria da população.

Todas as afirmações que se referem à obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos, estão relacionadas em:

a) I - III
b) II - IV - V
c) III - V
d) II - III - IV
e) I - II - IV


10. (UNIARAXÁ) Leia o fragmento abaixo transcrito da obra Vidas Secas e responda a questão a seguir.

Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. A pé, não se agüentava bem. Pendia para um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. Às vezes, utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopéias. Na verdade falava pouco. Admira as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas. (Graciliano Ramos)

O texto, no seu conjunto, enfatiza:

(A) A pobreza física do personagem.
(B) A falta de escolaridade do personagem.
(C) A miséria moral do personagem.
(D) A identificação do personagem com o mundo animal.
(E) nda


(UNIARAXÁ) Leia o fragmento abaixo transcrito da obra Vidas Secas e responda a questão a seguir.

Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. A pé, não se agüentava bem. Pendia para um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. Às vezes, utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopéias. Na verdade falava pouco. Admira as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas. (Graciliano Ramos)

No texto, a referência aos pés:

Ache os cursos e faculdades ideais para você !
(A) Constitui um jogo de contrastes entre o mundo cultural e o mundo físico do personagem.
(B) Acentua a rudeza do personagem, em nível físico.
(C) Justifica-se como preparação para o fato de que o personagem não estava preparado para caminhada.
(D) Serve para demonstrar a capacidade de pensar do personagem.
(E) nda


12. (IELUSC) Texto para a próxima questão.

Tinham deixado os caminhos, cheios de espinho e seixos, fazia horas que pisavam a margem do rio, a lama seca e rachada que escaldava os pés. [...]
[Sinhá Vitória] distraiu-se olhando os xiquexiques e os mandacarus que avultavam na campina. Um mormaço levanta-se da terra queimada.
Estremeceu, lembrando-se da seca, o rosto moreno desbotou, os olhos pretos arregalaram-se... (Graciliano Ramos)


O texto é um trecho da obra de Vidas Secas (1938), que sobre a qual é INCORRETO afirmar que:

a) Apesar de as personagens da história viverem no sertão nordestino, boa parte da trama se passa em São Paulo, que é o destino da maioria dos retirantes.
b) Focaliza uma família de retirantes que vive numa espécie de mudez introspectiva, em precárias condições físicas e num estado degradante de condição humana.
c) O autor descreve a realidade a partir da visão amarga do sertanejo, associando a psicologia das personagens com as condições naturais e sociais em que estão inseridas.
d) É um “romance desmontável”, tendo em vista sua composição descontínua, feita de episódios relativamente independentes e seqüências parcialmente truncadas.
e) Algumas das personagens são: Sinhá Vitória, Fabiano, Baleia e o Soldado Amarelo.


13. (FAPA) Leia o texto abaixo, de Vidas Secas, de Graciliano Ramos:

“Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e faminhos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos da catinga rala.”

Considere as afirmações abaixo a respeito do romance Vidas Secas:

I - O fragmento - parágrafo inicial do romance – apresenta o cenário da seca, que obriga uma família pobre do sertão a vagar triste e resignadamente em busca de um lugar onde possa sobreviver.
II - Como um típico Romance de 30, Vidas Secas aborda a estrutura econômica, social e histórica do Brasil daquela década, fazendo com que aspectos documentais estejam presentes na tessitura narrativa.
III - O mundo injusto e opressivo retratado em Vidas Secas é decorrente do latifúndio nordestino, responsável pela desigualdade social.

Quais são corretas?

(A) Apenas I
(B) Apenas I e II
(C) Apenas I e III
(D) Apenas II e III
(E) I, II e III

DISSERTATIVAS


14. (UFBA) Os meninos sumiam-se numa curva do caminho. Fabiano adiantou-se para alcançá-los. Era preciso aproveitar a disposição deles, deixar que andassem à vontade. Sinha Vitória acompanhou o marido, chegou-se aos filhos. Dobrando o cotovelo da estrada, Fabiano sentia distanciar-se um pouco dos lugares onde tinha vivido alguns anos; o patrão, o soldado amarelo e a cachorra Baleia esmoreceram no seu espírito.
E a conversa recomeçou. Agora Fabiano estava meio otimista. Endireitou o saco da comida, examinou o rosto carnudo e as pernas grossas da mulher. Bem. Desejou fumar. Como segurava a boca do saco e a coronha da espingarda, não pôde realizar o desejo. Temeu arriar, não prosseguir na caminhada. Continuou a tagarelar, agitando a cabeça para afugentar uma nuvem que, vista de perto, escondia o patrão, o soldado amarelo e a cachorra Baleia. Os pés calosos, duros como cascos, metidos em alpercatas novas, caminhariam meses. Ou não caminhariam? Sinha Vitória achou que sim. [...] Por que haveriam de ser sempre desgraçados, fugindo no mato como bichos?
Com certeza existiam no mundo coisas extraordinárias. Podiam viver escondidos, como bichos?
Fabiano respondeu que não podiam.
–– O mundo é grande.
Realmente para eles era bem pequeno, mas afirmavam que era grande –– e marchavam, meio confiados, meio inquietos. Olharam os meninos que olhavam os montes distantes, onde havia seres misteriosos. Em que estariam pensando? zumbiu sinha Vitória. Fabiano estranhou a pergunta e rosnou uma objeção. Menino é bicho miúdo, não pensa. Mas sinha Vitória renovou a pergunta –– e a certeza do marido abalou-se. Ela devia ter razão. Tinha sempre razão. Agora desejava saber que iriam fazer os filhos quando crescessem.
–– Vaquejar, opinou Fabiano.
Sinha Vitória, com uma careta enjoada, balançou a cabeça negativamente, arriscando-se a derrubar o baú de folha. Nossa Senhora os livrasse de semelhante desgraça. Vaquejar, que idéia!
Chegariam a uma terra distante, esqueceriam a catinga onde havia montes baixos, cascalhos, rios secos, espinhos, urubus, bichos morrendo, gente morrendo. Não voltariam nunca mais, resistiriam à saudade que ataca os sertanejos na mata. Então eles eram bois para morrer tristes por falta de espinhos? Fixar-se-iam muito longe, adotariam costumes diferentes.

RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 71. ed. Rio de Janeiro: Record, 1996. p. 120-122.

A análise do fragmento, contextualizado no romance Vidas Secas, permite afirmar:

(01) Fabiano considera necessária a imersão das crianças no mundo convencional para apreendê-lo e, assim, libertá-las das condições socioculturais vividas.
(02) Sinha Vitória não se submete às expectativas sociais dominantes, contudo vislumbra um retorno às trivialidades da sua vida social da infância.
(04) O conjunto de personagens da trama simboliza, alegoricamente, os heróicos seres que sonham em reformar a sociedade agrária brasileira à custa da luta armada.
(08) Fabiano e sinha Vitória configuram um tipo de ser que vive reiterando ações, sem nada acrescentar a seu processo de crescimento humano.
(16) Fabiano constitui uma metáfora de ser humano derrotado, que sofre as conseqüências das estruturas vigentes e não consegue impor seus pontos de vista.
(32) A narrativa como um todo retrata um espaço em que a imutabilidade social e o abismo entre povo e governo são incontestáveis.
(64) A interação entre humanos e inumanos na narrativa explica a descontinuidade das ações narradas.

RESOLUÇÃO

08 + 16 + 32 = 56


15. (UFBA) A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.
Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de moscas, semelhante a uma cauda de cascavel.
Então Fabiano resolveu matá-la. [...]
Sinha Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta: — Vão bulir com a Baleia?
[...]
Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se diferençavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro das cabras.
Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas sinha Vitória levou-os para a cama de varas, deitou-os e esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos: prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e espalmou as mãos nas orelhas do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou-se e tratou de subjugá-los, resmungando com energia.
Ela também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia.
[...]
Na luta que travou para segurar de novo o filho rebelde, zangou-se de verdade.
Safadinho. Atirou um cocorote ao crânio enrolado na coberta vermelha e na saia de ramagens.
Pouco a pouco a cólera diminuiu, e sinha Vitória, embalando as crianças, enjoou-se da cadela achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios. Bicho nojento, babão.
Inconveniência deixar cachorro doido solto em casa. Mas compreendia que estava sendo severa demais, achava difícil Baleia endoidecer e lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a execução era indispensável.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 74. ed. Rio de Janeiro: Record, 1998. p. 85-86.

Sobre o fragmento, contextualizado na obra, é correto afirmar:

(01) O primeiro e o segundo parágrafos contêm argumentos que justificam a decisão a ser tomada em relação a Baleia.
(02) Fabiano demonstra cuidados com Baleia, apesar de ser o seu algoz.
(04) O comportamento de sinha Vitória caracteriza-a como a mãe protetora, zelosa do bem-estar de seus filhos.
(08) O poder de decisão do chefe de família no ambiente rural fica evidente no texto.
(16) Sinha Vitória, ao aceitar passivamente a decisão do marido no que se refere a Baleia, demonstra ser indiferente ao animal e preocupar-se exclusivamente com seus filhos.
(32) A decisão de matar Baleia deixa patente o temperamento agressivo de Fabiano.
(64) A palavra “Mas”, no último parágrafo, antecede uma explicação do conflito entre razão e emoção vivido por sinhá Vitória.

RESPOSTA: 01 + 02 + 04 + 08 + 64 = 79


01. Leia o trecho e assinale a alternativa incorreta.
.Agora Fabiano era vaqueiro, e ninguém o tiraria dali. Aparecera como um bicho, entocara-se como um bicho, mas criara raízes, estava plantado. Olhou os quipás, os mandacarus e os xique-xiques. Era mais forte que tudo isso, era como as catingueiras e as baraúnas. Ele, sinhá Vitória,
os dois filhos e a cachorra Baleia estavam agarrados à terra.
(...) Entristeceu.
Considerar-se plantado em terra alheia! Engano. A sina dele era correr mundo, andar para cima e para baixo, à toa, como judeu errante. Um vagabundo empurrado pela seca."

a. Fabiano identifica melhoria na vida da família depois que se instalou na fazenda, mas a linguagem que emprega denuncia ironicamente os limites ,melhora, já que reduz sua humanidade ao comparar-se a bichos e plantas.
b. A expressão .estava plantado., do primeiro parágrafo, traduz a insatisfação do vaqueiro, que revela perceber o quanto é dependente da natureza e de uma terra que não é sua.
c. A expressão .entocara-se como bicho. refere-se ao modo pelo qual Fabiano se apropriara da fazenda desabitada, sem fazer alarde, na tentativa de não ser descoberto.
d. Entre os dois parágrafos transcritos ocorre contraste: inicialmente, Fabiano revela-se ingênuo por acreditar que dominava seu futuro, mas em seguida retifica sua euforia e expressa desilusão.
e. Nos dois parágrafos ocorre o emprego do discurso indireto livre, pelo qual o narrador acompanha as oscilações emocionais de Fabiano.

02. Assinale a alternativa correta sobre o trecho de Vidas secas.
.A princípio o vaqueiro não compreendeu nada. Viu apenas que estava ali um inimigo. De repente notou que aquilo era um homem e, coisa mais grave, uma autoridade. Sentiu um choque violento, deteve-se, o braço ficou irresoluto, bambo, inclinando-se para um lado e para outro. O soldado, magrinho, enfezadinho, tremia. E Fabiano tinha vontade de levantar o facão de novo. Tinha vontade, mas os músculos afrouxavam. Realmente não quisera matar um cristão: procedera como quando, a montar brabo, evitava galhos e espinhos. Ignorava os movimentos que fazia na sela. Alguma coisa o empurrava para a direita ou para a esquerda. Era essa coisa que ia partindo a cabeça do soldado amarelo. Se ela tivesse demorado um minuto, Fabiano seria um cabra valente. Não demorara."

a. Fabiano percebe que não tem força para matar o soldado amarelo e, tomado pela raiva contra a própria impotência, não controla seus movimentos.
b. Depois de ter sido afrontado pelo soldado amarelo, no episódio em que acabou preso por causa do jogo, Fabiano reencontra-se com a personagem no meio da caatinga, mas receia vingar-se simplesmente porque teme as represálias da força policial.
c. O soldado amarelo representa não apenas o poder autoritário, mas todo o mundo civilizado, ao qual Fabiano se esforça para integrar-se.
d. Fabiano não conseguia manter, naquele momento em que se deparava com o soldado amarelo, a agilidade e poder de resolução que caracterizava suas atividades como vaqueiro.
e. O estado emocional instável de Fabiano, provocado pelo encontro com o soldado amarelo, desgoverna-o, de modo que o personagem se deixa levar por um delírio, no qual se vê como assassino do soldado.

03. Cada um dos membros da família de Fabiano merece em Vidas secas um capítulo integralmente dedicado à apresentação da personagem e à exposição de um aspecto fundamental da vida dos retirantes.
Associe cada um desses quatro capítulos à interpretação adequada. Em seguida, assinale a alternativa que apresenta a associação correta.
( ) .Fabiano.
( ) .Sinha Vitória.
( ) .O menino mais velho.
( ) .O menino mais novo.
I. A incapacidade de compreender e de explicar o significado de um termo resulta em uma cena de desafeto, que registra não só os limites intelectuais/culturais dos integrantes da família de Fabiano, mas também uma hierarquia de poder, segundo a qual parece sempre haver alguém mais fraco na cadeia das relações sociais.
II. A percepção de que a vitória temporária não representa alteração fundamental na vida familiar concede um caráter crítico ao capítulo. Alia-se nesse crítica a consciência de que a cultura letrada não transforma a realidade, mas pode conceder poder àqueles que têm estudo e sabem se expressar bem.
III. A heroicidade do sertanejo é apresentada como uma perspectiva ingênua, infantil, que só leva em conta o aspecto aventuresco e não manifesta consciência do processo de desumanização provocado pela miséria e pela marginalização sócio-econômica.
IV. A despeito da situação de pauperismo em que vivem os retirantes, sobrevive a dimensão dos desejos, os sonhos de melhoria de vida. O fio de esperança que a personagem alimenta, a capacidade de manter previsões, amplia sua vida para além da sobrevivência diária e resguarda um mínimo de humanidade, que distingue seres humanos de outros animais.

a. (II) .Fabiano.; (I) .Sinha Vitória.; (IV) .O menino mais velho.; (III) .O menino mais novo.;
b. (II) .Fabiano.; (IV) .Sinha Vitória.; (I) .O menino mais velho.; (III) .O menino mais novo.;
c. (I) .Fabiano.; (IV) .Sinha Vitória.; (I) .O menino mais velho.; (II) .O menino mais novo.;
d. (III) .Fabiano.; (II) .Sinha Vitória.; (I) .O menino mais velho.; (IV) .O menino mais novo.;
e. (IV) .Fabiano.; (I) .Sinha Vitória.; (III) .O menino mais velho.; (II) .O menino mais novo..

04. Leia o trecho do capítulo .Fuga...Saíram de madrugada. Sinha Vitória meteu o braço pelo buraco da parede e fechou a porta da frente com a taramela. Atravessaram o pátio, deixaram na escuridão o chiqueiro e o curral, vazios, de porteiras abertas, o carro de bois que apodrecia, os juazeiros. (...) Desceram a ladeira, atravessaram o rio seco, tomaram rumo para o sul. Com a fresca da manhã, andaram bastante, em silêncio, quatro sombras no caminho estreito coberto de seixos miúdos (...)."

A partir da análise do trecho, é incorreto afirmar sobre o estilo de Graciliano Ramos: a. A narração é entremeada de elementos descritivos anunciados de modo breve, na medida necessária para indicar o estado de falência em que se encontrava a fazenda, assolada pela estiagem.
b. O narrador é atento a detalhes significativos, como o fato de sinha Vitória fechar a porta, que, se por um lado revela um cuidado desnecessário e mesmo descabido naquela situação, por outro enfatiza o apego que naturalmente se desenvolveu entre a família e o espaço físico da fazenda durante o período de chuvas.
c. Por ser uma obra regionalista, Vidas secas dá destaque à descrição da paisagem da caatinga, compondo uma pintura rica em detalhes, de modo a ressaltar a importância dos aspectos naturais na determinação da desgraça das personagens.
d. No trecho, há praticamente apenas quatro adjetivos (.abertas., .seco., .estreito. e .miúdos.) e
todos eles podem ser considerados .objetivos., isto é, contribuem para descrever de maneira
realista, sem a interferência emocional do observador, a paisagem.
e. As orações são apresentadas preferencialmente na ordem direta e formam períodos por coordenação, o que se ajusta à reconhecida simplicidade da linguagem de Graciliano Ramos.

05. Leia as afirmações e em seguida assinale a alternativa que as analisa corretamente.
I. Ao mesmo tempo que representam toda uma classe de seres humanos enjeitada ou simplesmente esquecida pela estrutura social, as personagens de Vidas secas não se reduzem a meras personagens-tipos, porque suas diversificadas vivências psicológicas, reveladas pelo discurso indireto livre, não são verossímeis, não correspondem ao gênero de reflexão que se espera de um sertanejo pobre.
II. A estrutura cíclica da obra é uma decisão estilística que denuncia o ponto de vista do autor: para o homem maltratado pela seca, desamparado de qualquer ajuda e destituído de poder, o bem-estar só pode ser compreendido como momento instável e transitório.
III. As limitações da linguagem que caracterizam a família de Fabiano indicam uma relação determinista de causa e efeito, segundo a qual a desnutrição e a impossibilidade de freqüentar a escola impossibilitam que os seres humanos consigam compreender a realidade que os cerca. Na obra, quem domina a linguagem consegue alterar a situação de miséria provocada pela seca.
a. somente a alternativa I está correta;
b. somente as alternativas I e II estão corretas;
c. somente as alternativas II e III estão corretas;
d. somente a alternativa II está correta;
e. nenhuma alternativa está correta.


Gabarito
01. Alternativa b.
02. Alternativa e.
03. Alternativa b.
04. Alternativa c.

05. Alternativa d.

Questões Drummond

A ROSA DO POVO
1-A poesia social de Drummond, em um processo de investigação lúcida, medita sobre o mundo que o cerca, analisando seu tempo, suas vicissitudes, sua matéria, seus conflitos. Das alternativas que se seguem, qual aquela que NÃO apresenta versos cuja temática revela esse traço social?
A) Este é tempo de partido,/tempo de homens partidos./Em vão percorremos volumes,/viajamos e nos colorimos./A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua./ Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos./ As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei./ Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra.
ANDRADE, Carlos Drummond.  “Nosso Tempo”
B) (…) apenas,sem saber por que,/como, para que,//tu vives: cadáver,/malogro, tu vives,/rotina, tu vives /tu vives, mas triste/duma tal tristeza/tão sem água ou carme, /tão ausente, vago,/que pegar quisera/na mão e dizer-te:/Amigo, não sabes/que existe amanhã?
ANDRADE,Carlos Drummond.    “Uma hora e mais outra”
C) Nos áureos tempos/a rua era tanta./O lado direito/retinha os jardins./Neles penetrávamos/indo aparecer/já no esquerdo lado/que em ferros jazia./Nisto se passava/um tempo dez mil.
ANDRADE.Carlos Drummond.    “Nos áureos tempos.”
D) As cidades podem vencer, Stalingrado!/Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga/Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo/Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,/ a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.
ANDRADE.Carlos Drummond.   “Carta a Stalingrado”.

2-A metalinguagem é um dos pontos mais altos da obra lírica  “ A Rosa do povo”. Alguns poemas discutem onde está a poesia, outros apontam todas as considerações sobre o fazer poético, além daquelas que são pessimistas em relação à função da poesia ou à aceitação dela. Qual a alternativa a seguir se diferencia quanto à temática?
A) Não rimarei a palavra sono/com a incorrespondente palavra outono./Rimarei com a palavra carne/ ou qualquer outra, que todas me convém./As palavras não nascem amarradas,/elas saltam, se beijam, se dissolvem,/no céu livre por vezes um desenho,/são puras, largas, autênticas, indevassáveis. (C.A.D. “Consideração do poema”)
B) Chega mais perto e contempla as palavras./Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra/ e te pergunta, sem interesse pela resposta,/pobre ou terrível, que lhe deres:/Trouxeste a chave?(C.A.D. “Procura da poesia”)
C) Adeus: vamos para a frente,/recuando de olhos acesos./Nossos filhos tão felizes…/Fiéis herdeiros do medo,/eles povoam a cidade./Depois da cidade, o mundo./Depois do mundo, as estrelas,/dançando o baile do medo. ( C.D.A.  “ O Medo”)
D) Penetra surdamente no reino das palavras./Lá estão os poemas que esperam ser escritos./Estão paralisados, mas não há desespero,/há calma e frescura na superfície intata./Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário./ Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.(C.D.A. “Procura da poesia”)

3- “Um sabiá
na palmeira, longe.
Estas aves cantam
um outro canto.” (“Nova canção do exílio” in A rosa do povo, Carlos Drummond de Andrade)
O fragmento acima traz um procedimento característico da criação literária, que é o aproveitamento de outros textos já existentes na Literatura. Como pode ser chamado esse procedimento? A qual texto o fragmento se refere e qual é o autor do texto referido?
a) plágio; “Canção do exílio”; Gonçalves Dias.
b) intertextualidade; “Canção do exílio”; Gonçalves Dias.
c) intertextualidade; “Canção do exílio”; Gonçalves de Magalhães.
d) contraste; “Velha canção do exílio”; Gonçalves de Magalhães.

A flor e a náusea
Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

[…]

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
ANDRADE, Carlos Drummond de. In “A rosa do povo”. Rio de Janeiro: Record, 2008.

4- A frase que inicia O capital, repercute também nestes versos do poema “A flor e a náusea”, de Carlos Drummond de Andrade:

Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.

Nesses versos,
A) as mercadorias, convertidas em melancolias, libertam o indivíduo da prisão de sua classe.
B) as roupas brancas do poeta, diferentemente de sua classe social, simbolizam sua libertação.
C) os sentimentos melancólicos do poeta estão por ele ironicamente associados à condição de mercadorias.
D) de branco, o poeta caminha com absoluta inconsciência de seu lugar numa sociedade de classes.

5-Assinalar com V (verdadeiro) ou com F (falso) as afirmativas abaixo, sobre a “flor” referida nas estrofes finais do poema acima:

(  ) simboliza a resistência à coisificação do homem nas grandes cidades, regidas pelo ritmo dos “negócios”.
(  )irrompe com uma força inusitada, substituindo o tédio e a náusea pela esperança.
(  )não consegue reverter o sentimento de tédio e de ódio que toma conta do eu-lírico do poema.
(  )é apenas uma imagem para ressaltar que nada pode modificar o cenário desumano da cidade.
(  )passa despercebida de muitos na rotina da cidade, embora o inusitado do seu nascimento.

O preenchimento correto dos parênteses, de cima para baixo, é:
A) V – F –V – V – F
B) V – V – V – F – F
C) V – V – F – F – V
D) V – F – F – V – V

6-Leia o seguinte fragmento do poema Procura da poesia, de Carlos Drummond de Andrade.

01. “Não faças versos sobre acontecimentos.
02. Não há criação nem morte perante a poesia.
03. Diante dela, a vida é um sol estático,
04. não aquece nem ilumina.
05. As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
06. Não faças poesia com o corpo,
07. esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso* à efusão lírica.
08. Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
09. são indiferentes.
10. Nem me reveles teus sentimentos,
11. que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
12. O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.”
* contrário
Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as afirmações abaixo sobre o sentido do texto.
(  ) As formas verbais do imperativo negativo (v. 01, 06 e 10) evidenciam que o poeta procura dissuadir aquele que queira fazer poesia sobre suas experiências pessoais e familiares.
(   ) Trata-se de um poema sentimental que visa tornar a criação poética acessível a todos os leitores.
(   ) Os versos 06 a 09 negam o corpo como área de motivação à criação poética.
(   ) A poesia é algo que transcende a vida, o corpo, os pensamentos e os sentimentos.
A sequência correta de preenchimentos dos parênteses, de cima para baixo, é

(A) V – V – F – F.
(B) F – V – F – V.
(C) V – F – V – F.
(D) V – F – V – V.


Leia os textos a seguir e utilize-os para a solução das questões propostas.
TEXTO 1 – O Áporo1

Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.

Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?

Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:

em verde, sozinha
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.


ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia Poética / Carlos Drummond de Andrade; organizada pelo autor – 25ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 1990.
1 ÁPORO – s.m. Problema difícil ou impossível de resolver; aporismo. // (Bot.) gênero de plantas da família das orquídeas, composto de várias espécies, todas herbáceas, de flores quase solitárias, ordinariamente esverdeadas. // (Zool.) Gênero de insetos himenópteros da família dos cavadores. (AULETE, Caldas. Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguêsa.- 5ª ed – Rio de Janeiro: Delta, 1968)

7- Considerando as definições para o vocábulo ÁPORO, temos como correta a seguinte interpretação para o poema de Carlos Drummond de Andrade – texto 1.
A) O inseto (homem) e o enfrentamento dos obstáculos do existir (labirinto) com dificuldade e cansaço, mas que, de repente, depara-se com possível sucesso (orquídea).
B) O inseto (poeta) que não consegue enfrentar o desafio de uma página em branco (labirinto) para redigir um poema (orquídea).
C) A orquídea (vida) que é prejudicada por ações repetidas (cava, cava) e incorretas (antieuclidiana) do próprio homem (inseto).
D) O labirinto (existência) visto pelo homem (inseto) como sinônimo de insegurança (antieuclidiana) e solidão ( em verde, sozinha).

Leia os excertos abaixo, extraídos do poema “Procura da Poesia”, do livro “A Rosa do Povo”, de Carlos Drummond de Andrade.
“Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.”
“Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?”

8- Assinale a afirmação correta sobre esses excertos.
A) Os versos 01 e 06 expressam uma técnica elaborada pelo poeta para facilitar a leitura da poesia moderna.
B) Os versos comprovam os múltiplos sentidos que as palavras possuem, quando pesquisadas no dicionário.
C) Os versos recomendam a utilização de uma única chave para decifrar as palavras de superfície enganosa.
D) Nos versos, o autor põe em destaque os poemas e as palavras, atribuindo-lhes autonomia, voz e sentimentos.

9-Considere as seguintes afirmações relativas ao livro A rosa do povo, de Carlos Drummond de Andrade:
I. Muitos poemas expressam as preocupações coletivas e individuais causadas pelo momento histórico em que o livro foi escrito. Assim, Drummond, nesta obra, pode ser considerado um poeta do seu tempo, que buscou no real que o envolvia razões sociais e estéticas para a sua literatura, possibilitando, com seus versos, uma reflexão sobre o presente e o futuro do mundo.
II. Os poemas foram escritos num tempo histórico marcante para o mundo e para o Brasil: o da II Guerra Mundial e do Estado Novo. Entretanto, os poemas não refletem sentimentos provocados pela realidade da época, pois Drummond não fazia poesia engajada. Para ele, fazer poesia era fazer experimentos de linguagem.
III. O livro estabelece uma relação harmoniosa com aquela contemporaneidade do mundo e do Brasil de 1945, ano de sua publicação, pois revela, nos poemas, a angústia, a dor, a náusea a que a vida estava submetida e apresenta a esperança como resistência ao caos totalizante que se instalara. Nesse sentido,
Drummond colocou sua estética a serviço da causa social.
Quais estão corretas?

A) Apenas I e II
B) Apenas I e III
C) Apenas II e III
D) Apenas I

10- Além do poema, considere também o texto a seguir.
O governo promoveu [em agosto de 1944] um comício para comemorar o segundo aniversário da entrada do Brasil na guerra. Tudo preparado meticulosamente, comércio fechado à tarde, e nenhuma vibração. Na grande faixa de pano erguida junto ao Teatro Municipal [de São Paulo], a inscrição “Ordem e disciplina”, indicando que o governo pensa menos em ganhar a guerra do que em salvar-se. (Carlos Drumond de Andrade)
(In: Carlos Guilherme Mota e Adriana Lopez. História e Civilização. São Paulo: Ática, 1995. p. 131)
Carlos Drumond de Andrade, em A rosa do povo, faz referência ao contexto da grande guerra mundial. Ele também mostrava preocupação com as questões políticas que ocorriam no cenário brasileiro daquele contexto histórico. No texto, Drummond demonstra
A) apoio incondicional à participação do governo brasileiro ao lado dos países que compunham o Eixo Berlim-Roma no final da guerra.
B) posicionamento contrário ao governo ditatorial vigente no país, que cerceava a liberdade de expressão e o direito à organização independente das normas do Estado.
C) contradição, pois aprecia a entrada do Brasil na guerra ao mesmo tempo em que tece crítica contundente ao governo pela falta de liberdade individual.
D) satisfação com o governo brasileiro por este despertar o nacionalismo dos brasileiros com a realização de grandes manifestações públicas.

Gabarito:
1-      C
2-      C
3-      B
4-      C
5-      C
6-      D
7-      A
8-      D
9-      B
10-   B